A vida profissional pode ser uma maratona

No início desse ano fiz um post sobre a minha experiência de correr uma meia-maratona, e a partir daí muita coisa mudou. Se profissionalmente eu atuo desafiando pessoas a se tornarem ainda melhores do que já são, pessoalmente eu considero que o maior desafio a ser superado é aquele que impomos a nós mesmos. E eu me desafiei a correr uma maratona até o meio de 2019. Mas não uma maratona qualquer, tinha que ser a Maratona do Rio, correr 42km na minha cidade natal. E neste último domingo eu fiz essa prova: virei maratonista! Um ditado popular diz que a vida está mais para uma maratona do que para os 100m rasos. Mas aparentemente pouca gente se aventura nessa: apesar das principais provas contarem com dezenas de milhares de participantes, estima-se que menos de 1% da população mundial já tenha corrido uma maratona. Porque será?

Estima-se que menos de 1% da população mundial já tenha corrido uma maratona.

O preparo é cruel. Eu me preparei desde o início do ano, o chamado “ciclo de treinamentos” para uma prova longa como essa. Esse ciclo, exige foco, disciplina e uma força de vontade acima da média. É preciso realizar exercícios de fortalecimento, fisioterapia e funcionais, além de simular movimentos, atividades por vezes consideradas chatas por quem deseja simplesmente correr. Porque o grande lance está aí: se você não que se lesionar, correr não é simples. Há muita ciência por trás, e vários profissionais especializados no assunto. Termos como pace (ritmo de corrida), drop (inclinação do solado do tênis), quebrar (corredor que sai de uma prova ou diminui muito seu pace), dentre muitos outros, ficaram familiares. Criei um perfil no Instagram (@corredor.sem.patela) para compartilhar minha rotina de treinos e provas para interagir com outros praticantes de corrida.

Estudei muito o assunto, virei um amador quase especialista, como, alias, a raiz da palavra “amador” sugere: aquele que faz por amor. Me apaixonei pela corrida, e, assim como na vida, sem essa paixão considero difícil encarar um grande desafio. Busquei apoio remoto de uma assessoria esportiva, já que minha agenda torna difícil assumir compromissos fixos. Segui os treinamentos conforme meus horários permitiam, e aos domingos saia antes do sol nascer para fazer os treinos mais longos, de 20km a 34km. Voltava para casa ainda cedo trazendo o pão para o café da manhã com a minha família acordando. Nessa preparação, fiz mais duas meias-maratonas em São Paulo e uma em Santos, além de outras provas mais curtas. O pessoal do trabalho, amigos, família, todos acompanhavam, torciam e se surpreendiam a cada prova e treino realizados.

Me apaixonei pela corrida, e, assim como na vida, sem essa paixão considero difícil encarar um grande desafio.

Não foi fornecido texto alternativo para esta imagem

Sobre a prova em si, posso dizer que maratona não é coisa de Deus. Ou é, vai saber… Emil Zatopek disse que correr uma maratona muda a sua vida, e isso é absolutamente verdade. Fui sereno até os 25km, passeando pelo cantro histórico do Rio e chegando a zona sul. Daí em diante a quantidade de pessoas “quebrando” foi assustadora. Muita gente andando, muita mesmo, principalmente depois dos 30km. Aí passa um milhão de coisas na sua cabeça, a pior delas é “e se eu quebrar também?” Dos 35km em diante, muito sol e calor, eu não pensava em nada além de terminar a prova sem caminhar, e decidi economizar energia. No 37km passei em frente ao hotel onde minha família estava e dei um beijo no meu filho e na minha mulher, foi um incentivo inesquecível.

Mas minha maior vitória foi realmente não caminhar: corri o tempo todo! Parei 3x no wc, uma vez em um posto de hidratação, e bola pra frente. Fui no pace que deu, com a pisada que dava, tentando manter a espinha ereta. Ainda tentei ajudar e incentivar algumas pessoas que caminhavam lentamente. Chegar correndo aos 40km com a paisagem da enseada de Botafogo e o Pão de Açúcar ao fundo jamais sairá da minha memória. Nos 41km um princípio de câimbra na coxa direita, solenemente ignorada. A chegada no pórtico foi com a sensação de estar batendo o recorde mundial, e o joelho sem patela não atrapalhou: cabeça e coração compensaram, foram mais de 4h30 correndo. No final encontrei novamente minha família e comemoramos muito!

Maratona não é coisa de Deus. Ou é, vai saber…

O impressionante é como a corrida em geral, e a maratona em particular, podem guardar relação com a vida profissional. Não apenas por melhorar o bem estar físico e mental, mas por ser possível visualizar situações semelhantes, como:

  • Profissionalmente não fazemos somente aquilo que gostamos. Querendo ou não, realizamos várias atividades para suporte ou desenvolvimento daquilo que realmente gostamos de fazer. Para correr bem, sem lesões, é preciso fazer uma série de outras atividades não tão prazerosas, e entender a importância dessas atividades;
  • No trabalho, muitas vezes desejamos ter controle das situações, mas nem sempre as coisas saem como planejamos. Há um imponderável envolvido, por mais controles que sejam estabelecidos. Em provas longas, como uma maratona, mesmo estando muito bem treinado, há muitas variáveis incontroláveis, como a fisiologia, o psicológico e o clima. Isso pode fazer com que simplesmente você não consiga concluir uma prova;
  • Profissionalmente, o tempo a ser investido em planejamento e preparação é por vezes considerado desperdício: o negócio é ir lá e fazer. E quase sempre ter que refazer. A preparação para uma maratona não ocorre da noite para o dia, é preciso preparo de meses para passar algumas horas correndo com algum sucesso;
  • As empresas raramente podem abrir mão de traçar algum tipo de estratégia, de conhecer seus pontos fortes e fracos, tendo a capacidade de se ajustar conforme a necessidade. Para uma maratona, é fundamental ter em mente a estratégia para a prova, conhecer o percurso, prever as variações de velocidade, entender como o seu corpo está reagindo e ajustar o que for preciso, em tempo real;
  • Em vários momentos profissionais recorre-se a terceiros, como cursos e consultorias, para aporte de conhecimentos específicos que aprimorem a atuação e minimizem incertezas. Para uma maratona, por mais que você seja capaz de fazer as coisas por sua própria conta, se puder contar com apoio especializado, tende a ser muito melhor;
  • Por vezes fazemos sacrifícios pessoais e profissionais difíceis de serem compreendidos por quem está de fora. Minha sugestão é tentar envolver ao máximo as pessoas à sua volta, especialmente sua família, para que elas sejam capazes de compreender suas motivações. Acredite, quem realmente se importa com você irá te apoiar. Uma minoria irrisória vai torcer contra ou te criticar.

Aprendi muito com essa minha primeira maratona, e aprendo cada vez mais ao relembrar de cada detalhe desde o início da preparação. Esse aprendizado possui várias dimensões que te obrigam a evoluir, querendo ou não. Guardadas as devidas proporções, o orgulho ao olhar a medalha é similar ao de várias realizações acadêmicas e profissionais. Impagável ver o orgulho estampado no rosto do meu filho, incrédulo com essa minha façanha. E espero que eu ainda possa exercer orgulhos desse tipo por muito tempo…

PS: Dificilmente um desafio como esse é superado sozinho:

  • Assessoria Esportiva: Corredores da Zona Norte, do Marcelo Avelar, contratei de forma remota, são atenciosos e muito profissionais;
  • Fisioterapia: Clínica Prophysio, do Alexandre Quaresma, que recupera o que parece irrecuperável;
  • Nutrição: Bio Nutrição e Estética, da Claudia Larroyd, entrou a apenas duas semanas da prova, mas ajudou muito.

    Por Ivan Correa – Sócio-Diretor da Posiciona Educação & Desenvolvimento.

Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail