SÃO MUITAS NRFs

Todo mês de janeiro ocorre em Nova Iorque o maior evento mundial de varejo e consumo: a NRF – Big Show, no Javits Convention Center, organizado pela National Retail Federation, a associação de varejo dos EUA.

O gigantismo do evento impressiona: é uma combinação de congresso e exposição, que em 2019 contou com mais de 300 sessões de conteúdo, 700 expositores e um total de cerca de 37.000 participantes, entre congressistas e visitantes, vindos de 99 países. Normalmente temos muitos brasileiros neste evento, nos últimos anos tem girado em torno de 2.000, formando a maior delegação internacional. Os brasileiros que participam contam com tradução simultânea para o português de todas as sessões do congresso, além de vários encontrar vários brasileiros trabalhando nos estandes da área de exposição. Tudo isso indica a relevância da NRF – Big Show para o nosso contexto de varejo e consumo.

Muitos desses participantes integram grupos de empresas especializadas em trazer participantes ao evento, algumas delas o fazendo de maneira mais estruturada, outras mais informalmente. Todas essas empresas se propõem a fazer uma espécie de “curadoria de conteúdo”, sugerindo sessões do congresso, realizando visitas guiadas na Expo e ainda realizando visitas em lojas específicas de Manhattan. Mas há também muitos brasileiros que acabam vindo de forma independente, seja porque já conhecem bem o evento ou qualquer outra razão. Como consequência disso tudo, aliada a incrível capacidade de publicação que cada indivíduo possui atualmente, faz com que vejamos muito conteúdo sobre o evento, por vezes falando coisas diferentes sobre o mesmo tema.

Mesmo que você tenha participado desta NRF – Big Show, é possível que você tenha “perdido” muita coisa. Conversar com cada pessoa que esteve no evento pode parecer falar de um evento diferente, talvez com alguns pontos em comum, e isso é bom!

Vejamos resumidamente porque:

1 – Cada um tem seus objetivos específicos: tenha vindo em um grupo ou de forma independente, alguns participantes vão mais para fazer networking, outros buscam mais conteúdo e outros podem mais querer ver o que terá de novidades na exposição, fazendo contatos internacionais. Outros podem ainda querer uma parte significativa de lazer, afinal, Nova Iorque, mesmo no auge do inverno, é o máximo. Enfim, com a possibilidade de diferentes objetivos, as percepções sobre o evento podem variar sensivelmente.

2 – Dentro dos objetivos de cada um, os temas podem variar: vai buscar networking com prospects, parceiros ou ambos? Quer ver, ser visto ou ambos? O conteúdo desejado é relacionado à pessoas, marketing, mercadorias, operações, TI, etc? Na exposição, o foco é hardware ou software, front-end ou back-end? O risco aqui é a pessoa tentar capturar tudo e acabar ficando muito raso, terminando o evento frustrado. Ou realizado, vai saber.

3 – É muita coisa em pouco tempo: o evento em si dura três dias e, exceto as keynotes, as demais sessões são todas simultâneas. Ou seja: há que se escolher, conforme os objetivos e temas, a quais sessões assistir. Além disso a própria exposição oferece muitas sessões, algumas muito boas, e o melhor (ou pior): são gratuitas, pois você não precisa ser congressista para circular pela exposição e assisti-las. E mesmo após ter se decidido por uma sessão, você encontra com alguém conhecido que sugere outra, e acaba seguindo-o, ou vice-versa. E são grandes as chances de alguém te comentar que acabou de assistir a uma sessão muito boa, quando você acabou de sair meio frustrado da que assistiu no mesmo horário. Com tantos trade-offs, é quase uma curadoria de conhecimento, que pode ser muito facilitada pelo uso do aplicativo do evento e conversas com veteranos.

4 – Cada um é cada um: na década de 1960, dois professores de sociologia, Peter Berger e Thomas Luckman lançaram a obra “A construção social da realidade”, na qual tratavam sobre como o contexto social pode moldar o conhecimento. Além isso, o histórico cultural e intelectual de cada um particulariza o que está sendo aprendido, conforme o seu repertório e interesse. Quando vemos alguém apresentado informações e propondo que os colaboradores são a chave para destravar o cadeado da relação com o cliente, um pode entender que esse desafio está na implantação tecnológica, outro no treinamento. Em resumo, é por isso que duas pessoas assistindo a um mesmo conteúdo podem ter interpretações completamente diferentes. Ou não.

5 – Cada empresa é uma empresa: há cerce de vinte anos, o psicólogo organizacional Karl Weick cunhou a expressão sensemaking, como o processo por meio do qual as pessoas davam sentido ao que viam e viviam nas organizações. Assim, se um pessoa vai a um evento de cunho profissional, como a NRF, é provável que enxergue uma aplicabilidade diferente para aquilo que o seu colega acabou de ver, porque cada um poderá dar um sentido prático diferente a um mesmo conteúdo. Ver a demonstração da entrega por meio de robôs e drones provavelmente irá gerar impactos diferentes na aplicabilidade de empresas distintas, ainda que de um mesmo setor.

6 – New York, New York: Faça o frio que fizer, todos aproveitam para passear e circular pelas lojas, seja em uma visita técnica oficial, seja por conta própria. Talvez não exista outro lugar que reúna em área geográfica tão pequena tantas marcas e inovações. É uma ótima oportunidade para ver ao vivo não apenas novidades do momento, mas o quanto as novidades do passado vingaram de fato. Há alguns anos a novidade era a customização de produtos anunciada há dez anos, funcionando muito bem nas lojas como Nike e All Star, e hoje presente em várias operações.

 

Assim, quer você tenha participado ou não do evento, não fique confuso com cada percepção apresentada por meio de vídeos, artigos, ou ainda nos eventos ligados a NRF – Big Show que acontecerão no Brasil. O evento foi um só, mas com tanta gente participando, se torna vários, inclusive o seu. E o meu…

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